domingo, 17 de abril de 2011

Os objetivos das pesquisas científicas

Os objetivos das pesquisas científicas [1]

Entender a causa e o efeito

Um dos principais problemas a serem abordados na metodologia de pesquisa é a análise entre a causa e o efeito. Uma relação casual entre dois eventos ou das duas situações é uma associação na qual um evento ou situação gera outro evento ou outra situação. Soltando-se o freio de mão de um carro estacionado em um declive, este descerá morro abaixo, adquirindo cada vez mais velocidade. A causa desse acontecimento foi a atitude de soltarmos o freio; os motivos disso podem ser facilmente compreendidos pela referência com os princípios físicos envolvidos. Assim como a ciência natural, a sociologia depende da suposição de que todos os eventos possuem causas. A vida social não é um conjunto aleatório de ocorrências sem pé nem cabeça. Uma das principais tarefas da pesquisa sociológica – combinada ao pensamento teórico – é identificar as causas e os efeitos.


Casualidade e correlação

A casualidade não pode ser inferida diretamente a partir da correlação. A correlação significa a existência de uma relação regular entre dois conjuntos de ocorrências ou variáveis. Uma variável é qualquer dimensão ao longo da qual variam os indivíduos ou os grupos. A idade, as diferenças no nível de renda, os índices de criminalidade e as diferenças em termos de classe social estão entre as muitas variáveis estudadas pelos sociólogos. Pode parecer que, quando se descobre que duas variáveis estão intimamente correlacionadas, uma deve ser a causa da outra – o que muitas vezes não é verdade. Há muitas correlações que não possuem nenhuma relação casual entre as variáveis. Por exemplo, no período após a Segunda Guerra Mundial, podemos encontrar uma forte correlação entre o declínio do número de fumantes de cachimbo e a diminuição do volume de pessoas que vão regularmente ao cinema. Não há dúvidas de que uma mudança não provocou a outra, e seria difícil descobrir até mesmo uma ligação casual remota entre elas.
Há muitos casos, contudo, em que não fica tão óbvio que uma correlação observada não implique uma relação casual. Essas correlações são armadilhas para os imprudentes, levando facilmente a conclusões questionáveis ou falsas. Em sua obra clássica de 1897, Suicide (veja o Capítulo 1, “O que É Sociologia?, p. 24), Émile Durkheim descobriu uma correlação entre os índices de suicídio e as estações do ano (Durkheim, 1952). Nas sociedades estudadas por Durkheim, os níveis de suicídio aumentavam progressivamente a partir do mês de janeiro até junho ou julho. Dessa época em diante, eles apresentavam uma diminuição até o final do ano. Diante desses dados, poderíamos supor que existe uma relação causal entre a temperatura ou a mudança climática e a propensão de os indivíduos acabarem com a própria vida. Com a elevação da temperatura, talvez as pessoas fiquem mais impulsivas, agindo de sangue quente? Entretanto, neste caso, é provável que a relação causal nada tenha a ver diretamente com a temperatura ou clima. Essa suposição é uma correlação espúria – uma associação entre duas variáveis que parecem verdadeiras, mas cuja causa, na realidade, deve-se a outro(s) fator(es).
Analisando-se melhor essa questão, percebe-se que a maioria das pessoas tem uma vida social mais intensa na primavera e no verão do que no inverno. Indivíduos que estão isolados ou tristes tendem a ver esses sentimentos se intensificarem à medida que o nível de atividades das outras pessoas aumenta. Conseqüentemente, é provável que as tendências suicidas se pronunciem mais na primavera e n verão do que no outono ou no inverno, quando diminui o ritmo da atividade social.


O mecanismo social

Resolver as ligações causais envolvidas nas correlações é, muitas vezes, um processo difícil. Há uma forte correlação, por exemplo, entre o nível de conquista educacional e o sucesso ocupacional nas sociedades modernas. Quanto melhores forem as notas de um indivíduo na escola, melhor será a remuneração do emprego que ele deverá conseguir. Como explicar essa correlação? A pesquisa tende a mostrar que essa situação não se deve sobretudo à experiência escolar propriamente dita; os níveis de conquista na escola são muito mais influenciados pelo tipo de lar onde essa pessoa se criou. Crianças provenientes de lares mais ricos, nos quais os pais demonstram um profundo interesse em relação ao seu aprendizado e há fartura de livros, têm mais chances de se saírem bem do que vêm de lares em que tais qualidades são inexistentes. Os mecanismos causais neste caso são as atitudes dos pais para com seus filhos, somadas aos recursos de aprendizado oferecidos em casa.
As ligações causais na sociologia não devem ser entendidas de forma muito mecânica. As atitudes das pessoas e suas razões subjetivas para agirem dessa forma são fatores causais na relação entre variáveis na vida social.


Os controles

Ao avaliarmos a causa ou as causas que explicam uma correlação, é necessário traçarmos uma distinção entre variáveis independentes e varáveis dependentes. Uma variável independente é aquela que produz um efeito em outra variável. A variável afetada é a dependente. No exemplo há pouco mencionado, a conquista acadêmica é a variável independente, e a renda ocupacional é a dependente. A distinção refere-se à direção da relação casual que estamos investigando. O mesmo fator pode ser uma variável independente em um estudo, e uma variável dependente em outro. Tudo depende de quais processos causais estão sendo analisados. Se estivéssemos observando os efeitos das diferenças de renda ocupacional nos estilos de vida, a renda ocupacional seria então a variável independente, e não a dependente.
Para descobrirmos se uma correlação entre variáveis é uma ligação causal, utilizamos controles, ou seja, mantemos algumas variáveis constantes a fim de observarmos os efeitos de outras. Através desse processo, conseguimos formar uma opinião entre as explicações das correlações observadas, separando as relações causais das não-causais. Por exemplo, os pesquisadores que estudam o desenvolvimento infantil alegam a existência de uma ligação causal entre a carência materna na primeira infância e alguns problemas graves de personalidade na fase adulta. Como podemos examinar se realmente existe uma relação causal entre a carência materna e os posteriores distúrbios de personalidade? Tentando controlar, ou “filtrar” outras possíveis influências que talvez expliquem a correlação.
Uma fonte de carência materna é a internação de uma criança no hospital por um longo período, durante o qual esta fica separada de seus pais. Mas será que o que conta, nesse caso, é realmente o apego à mãe? Se uma criança receber amor e atenção de outras pessoas durante a primeira infância, não há chances de ela se tornar uma pessoa equilibrada? Para investigar essas possíveis ligações causais, precisaríamos comparar casos em que as crianças não receberam a atenção regular de ninguém e outros em que as crianças foram separadas de suas mães, mas receberam amor e cuidados de outra pessoa. Se o primeiro grupo desenvolvesse graves problemas de personalidade, mas o segundo não, suspeitaríamos de que o importante, na primeira infância, é a atenção regular de alguém, independentemente de essa pessoa ser ou não a mãe da criança. (Na verdade, as crianças parecem evoluir normalmente, desde que vivam uma relação estável, de amor, com alguém que as cuide – e que não precisa ser a própria mãe).


A identificação das causas

É grande o número de possíveis causas que poderiam ser invocadas para explicar qualquer correlação determinada. Como podemos ter certeza de estarmos abrangendo todas elas? A resposta é que não podemos. Nunca teríamos condições de executar uma pesquisa sociológica satisfatoriamente, e interpretar seus resultados, se fôssemos obrigados a fazer uma análise da possível influência de cada fator causal que imaginássemos ser potencialmente relevante. A identificação das relações causais é normalmente orientada pela pesquisa anterior na área em questão. Se, de antemão, não tivermos alguma idéia razoável dos mecanismos causais envolvidos em uma correlação, é provável que achemos muito difícil descobrir quais são as verdadeiras ligações causais. Não saberíamos o que avaliar.
Um bom exemplo da dificuldade em saber ao certo quais as relações causais envolvidas em uma correlação está na longa história dos estudos sobre o tabagismo e o câncer de pulmão. A pesquisa tem sempre demonstrado uma forte correlação entre os dois. Os fumantes correm mais riscos de contrair câncer de pulmão do que os não-fumantes e os fumantes inveterados, mais riscos do que os fumantes moderados. Mas também é possível expressar a correlação ao contrário. Uma grande proporção das pessoas que têm câncer de pulmão é fumante, ou fumaram durante muito tempo no passado. Existem tantos estudos confirmando essas correlações que geralmente se aceita a presença de um elo causal; porém, os mecanismos causais exatos são até o momento, praticamente desconhecidos.
Mesmo que haja um grande volume de trabalho correlacional sobre qualquer tema, sempre resta alguma dúvida a respeito das possíveis relações causais, havendo a possibilidade de outras interpretações dessa correlação. Já se propôs, por exemplo, que as pessoas que têm uma predisposição ao câncer de pulmão também são predispostas a fumar. Segundo essa visão não é o tabagismo que causa o câncer de pulmão, mas, sim, alguma tendência biológica para o tabagismo e o câncer que seja inerente ao indivíduo.



[1] Texto adaptado e formado por trechos do capítulo 20 do livro Sociologia de Antony Giddens. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004.

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