quinta-feira, 10 de março de 2011

O “olhar sociológico”


O “olhar sociológico” [1]
A maioria de nós vê o mundo a partir de características familiares a nossas próprias vidas. A sociologia mostra a necessidade de assumir uma visão mais ampla sobre por que somos como somos e por que agimos como agimos. Ela nos ensina que aquilo que encaramos como natural, inevitável, bom ou verdadeiro, pode não ser vem assim e que os “dados” de nossa vida são fortemente influenciados por forças históricas e sociais. Entender os modos sutis, porém complexos e profundos, pelos quais nossas vidas individuais refletem os contextos de nossa experiência social é fundamental para a abordagem sociológica.
Aprender a pensar sociologicamente – olhando – em outras palavras, de forma mais ampla – significa cultivar a imaginação. Estudar sociologia não pode ser apenas um processo rotineiro de adquirir conhecimento. Um sociólogo é alguém que é capaz de se libertar da imediatidade das circunstâncias pessoais e apresentar as coisas num contexto mais amplo. O trabalho sociológico depende daquilo que o autor norte-americano C. Wright Mills, numa frase famosa, chamou de imaginação sociológica (Mills, 1970).
O “olhar sociológico” se afasta do que está acostumado a ver todos os dias, para “ver de longe”, adquirindo uma visão ampla e percebendo o que antes não via, mas que já estava lá!
Assim, este “olhar” exige que nós pensemos fora das rotinas familiares de nossas vidas cotidianas, a fim de que as observemos de modo renovado. Vendo de novo e notando “novidades” que não víamos antes.
Esse fenômeno é denominado pela sociologia de desnaturalização, ou seja, um tipo de estranhamento ou problematização. Isso porque percebemos que o que acontece ali, na realidade social observada não “natural”, mas sim artificial, criado e moldado pelos seres humanos daquela sociedade. É o processo permite ao indivíduo perceber que os problemas pessoais que o rodeia estão ligados a questões gerais da estrutura social e que a sua história pessoal é influenciada, senão moldada, pelo que acontece na sua socie­dade. Desse modo ele pode compreender o que lhe está acontecendo numa amplitude maior.
Por outro lado, o “olhar sociológico” também observa de perto, vendo detalhes e significados que estão desapercebidos.
Assim, vislumbramos como as ações dos indivíduos são realizadas mirando os outros indivíduos, como há entre eles grande reciprocidade de intenções e expectativas, revelando a dimensão social do comportamento humano. Quer dizer que podemos compreender o sentido das ações dos outros, que elas po­dem ser reveladas.


[1] Texto adaptado didaticamente do capítulo 1 do livro Sociologia de Antony Giddens. Porto Alegre: Editora Artmed, 2004.

Um comentário:

  1. Jesus tinha um olhar sociológico, deixou para nossa reflexão seu encontro com a mulher samaritana, no evangelho escrito por João no capitulo 4. Quando a partir da observação de seu contexto social ele apresenta para ela a resposta pessoal que tanto procurava.

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